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Prata e lobisomem: de onde vem a bala de prata

Prata e lobisomem: por que a bala de prata virou arma contra monstros? Veja o que registram a Fera de Gévaudan e o folclore, sem lenda inventada.

Por Redação reau.news · · 4 min de leitura

Lua cheia no céu noturno

Se existe uma associação que todo mundo conhece, é a de prata e lobisomem: filmes, séries e jogos repetem que só uma bala de prata acaba com a criatura. Mas de onde vem essa ideia? A resposta é mais curiosa, e menos tradicional, do que parece.

A Fera de Gévaudan e o mito

Muita gente associa a bala de prata à Fera de Gévaudan, animal que aterrorizou o centro-sul da França entre 1764 e 1767. Segundo o site de divulgação histórica Twice Told, que trabalha com jornais da época e com os historiadores Jean-Marc Moriceau e Jay M. Smith, os registros de óbitos paroquiais indicam que as vítimas eram, em sua maioria, crianças que cuidavam de rebanhos, e as contagens variam de cerca de 80 a 113 mortos, dependendo dos mortos atribuídos à fera.

O ponto principal para a nossa história: a carta de 1767 que anunciou a morte do animal, escrita em Auvergne, diz que Jean Chastel atirou com uma arma carregada com uma bala e cinco chumbos grossos. Nenhum documento consultado pelo site menciona prata no tiro. O próprio Twice Told classifica a história da bala de prata, nesse caso, como sem comprovação.

De onde vem a lenda, então?

Segundo o mesmo levantamento, uma fonte secundária (Crouzet, 2001) aponta que a bala de prata ligada a Chastel começa no romance de Henri Pourrat, de 1946, embora o site não tenha conferido essa obra diretamente. Isso sugere que a versão "romântica" do tiro de prata é muito mais recente do que o caso.

Fontes de referência sobre a origem das expressões apontam para outra direção: a prata nunca foi específica do lobisomem. O Online Etymology Dictionary registra que, no folclore inglês do início do século XIX, uma bruxa só podia ser ferida (ou revelada, se estivesse transformada) por uma bala de prata, e cita crenças parecidas em contos da Irlanda e da Islândia. Segundo o site Phrase Finder, um exemplo do início do século XIX está em Tales of My Landlord, de Walter Scott (1816): fanáticos carregavam o mosquete com um dólar cortado em pedaços, na crença de que uma bala de prata derrubaria um perseguidor contra o qual o chumbo não tinha poder. Ou seja, a prata aparece como recurso contra o sobrenatural em geral.

Por que a prata?

Nenhuma dessas fontes explica de maneira definitiva por que a prata, e não outro metal, virou símbolo contra o sobrenatural. O que se sabe é que o metal tem uma longa associação com a Lua: o artigo de Alexander (2009) lembra que os alquimistas ligavam os sete planetas aos sete dias da semana e a partes do corpo, e conectavam a prata à Lua e ao cérebro. Segundo o artigo, essa associação deu origem a termos como "the silver moon" (em inglês, a "lua prateada") e "lunatic" (lunático).

A cor talvez também tenha ajudado. A Royal Society of Chemistry (RSC) descreve a prata como um metal brilhante e afirma que ele é o melhor refletor de luz visível conhecido. Brilho e luar combinam bem em uma noite de filme de terror.

Uma bala de prata funcionaria?

A pergunta é divertida, mas foge do escopo deste texto: o mito é cultural, não é um teste de balística. Só como dado de referência, a RSC dá 10,5 g/cm³ para a prata e 11,3 g/cm³ para o chumbo. A densidade, portanto, não explica o mito: a força da bala de prata está no simbolismo do metal, não em uma propriedade física.

A prata como curiosidade colecionável

O mito do lobisomem é um bom exemplo de como a prata atravessa a cultura popular. Hoje, o metal em sua forma mais pura, a prata 999, é usado em barras, moedas e peças comemorativas. A Morganti's Metais, de Joinville (SC), tem refino próprio e cunhagem própria e mantém uma linha de colecionáveis para quem gosta de peças com história. Para falar com a equipe, o contato é o WhatsApp (47) 98886-4334.

Em resumo

Segundo as fontes consultadas, o tiro que encerrou a história da Fera de Gévaudan, em 1767, foi feito com uma bala e cinco chumbos, e a bala de prata é uma adição posterior da ficção. A associação entre prata e criaturas sobrenaturais é mais antiga e mais ampla que o lobisomem.

Fontes

  • Twice Told — The Beast of Gévaudan, 1764 to 1767 (cita a Gazette de France, a carta de Auvergne de 1767 e os historiadores J.-M. Moriceau e Jay M. Smith): twicetold.org
  • The Phrase Finder — Silver bullet (cita Walter Scott, Tales of My Landlord, 1816): phrases.org.uk
  • Online Etymology Dictionary — silver bullet: etymonline.com
  • Royal Society of Chemistry — Silver, Periodic Table (densidade), e Lead: periodic-table.rsc.org
  • Alexander, J. W. — History of the Medical Use of Silver, Surgical Infections 10(3), 2009 (a prata e a Lua na alquimia): doi.org

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