Derivativos OTC: o que são e como ler os números de trilhões
O que são derivativos OTC, o que é valor nocional e valor de mercado bruto e por que os trilhões do BIS e da ISDA não são "dívida oculta". Dados de 2025.

De tempos em tempos circula uma manchete com um número gigantesco: "centenas de trilhões de dólares em derivativos". Quem lê isso pode imaginar uma dívida escondida do tamanho de várias economias. Na prática, esses números medem outra coisa, e entender o que eles medem muda a leitura.
Este texto explica o que são derivativos de balcão (OTC, de over-the-counter), como se lê o chamado valor nocional e o que os dados mais recentes do BIS (Banco de Compensações Internacionais), resumidos pela ISDA em julho de 2026, mostram. Ele não faz previsão de preço e nada aqui é recomendação financeira.
O que é um derivativo
Derivativo é um contrato cujo valor depende de outra coisa: uma taxa de juros, uma moeda, uma ação, uma mercadoria. Exemplos simples:
- um contrato para trocar moedas numa data futura;
- um contrato que fixa uma taxa de juros;
- um contrato futuro de prata, que acorda hoje o preço de uma entrega futura.
Quem usa? Empresas que querem fazer hedge de variações (como um exportador com receita em dólar), bancos, fundos e quem especula. Um derivativo transfere risco: o que um lado perde, o outro ganha.
OTC e bolsa: qual a diferença
- Em bolsa, os contratos são padronizados e passam por uma câmara de compensação. A prata na COMEX, por exemplo, tem contrato padrão de 5.000 onças, segundo o World Silver Survey 2026. Veja cotação da prata: LBMA e COMEX.
- No balcão (OTC), as partes negociam diretamente, e os termos podem ser sob medida. Parte das operações é compensada centralmente e parte não é.
No mercado de prata, Londres é o centro global do mercado de balcão, segundo o World Silver Survey 2026. O relatório usa o volume negociado na LBMA como indicador da atividade nesse mercado e diz que ele subiu 32% em 2025, para um recorde desde o início da coleta de dados, em 2018.
Como ler o "valor nocional"
O valor nocional é o valor de referência do contrato, aquele sobre o qual os pagamentos são calculados, e não o que alguém deve ou pode perder. Um exemplo: se duas partes trocam uma taxa fixa por uma variável sobre um valor de referência de 100 milhões, o nocional é 100 milhões. Mas só a diferença entre as taxas é paga, e ela costuma ser uma pequena fração do nocional.
Por isso o BIS e a ISDA mostram outras medidas ao lado do nocional:
- Valor nocional em aberto: a soma dos valores de referência de todos os contratos.
- Valor de mercado bruto: a soma dos valores absolutos de todos os contratos, positivos e negativos, a preços de mercado na data. É uma medida do custo de substituir os contratos.
- Exposição de crédito bruta: o valor de mercado bruto depois de abater acordos de compensação (netting), que permitem a duas partes somar ganhos e perdas entre si.
O que os dados mais recentes mostram
Segundo a nota de pesquisa da ISDA de julho de 2026, com dados do BIS para o fim de 2025:
- O nocional em aberto dos derivativos OTC no mundo foi de 844,6 trilhões de dólares, alta de 20,7% sobre o fim de 2024.
- Os derivativos de juros somaram 669,5 trilhões e os de câmbio, 148,7 trilhões. Ações, mercadorias e crédito ficaram em 11,9 trilhões, 2,8 trilhões e 11,3 trilhões.
- O valor de mercado bruto foi de 22,8 trilhões, ou 2,7% do nocional.
- A exposição de crédito bruta subiu 13,2%. O netting reduziu a exposição total em 85,3%, e ainda há garantias (colateral) sobre o que sobra.
Algumas observações:
- Escala. O valor de mercado bruto é pequeno em relação ao nocional, e a exposição de crédito, menor ainda.
- Peso dos metais. A nota não separa metais preciosos. A categoria "mercadorias" somou 2,8 trilhões, cerca de 0,3% do nocional total (conta feita com os números acima). A maior parte do nocional é de juros e câmbio.
- Comparação ao longo do tempo. A própria ISDA explica que a alta anual é afetada por duas razões: a ampliação do universo de instituições que reportam e a conversão de moedas em dólares, num ano em que o dólar se enfraqueceu.
Então os derivativos não oferecem risco?
Não é isso. Derivativos transferem e podem concentrar risco, e por isso são acompanhados por reguladores e pelo mercado. O ponto é que o nocional, sozinho, não mede o risco. Para avaliar, os reguladores olham outros números, como valor de mercado, exposição, garantias e compensação. Quem lê uma manchete deve se perguntar: é nocional, valor de mercado ou exposição? Qual a data? Qual a fonte?
O que isso tem a ver com metais
- Parte do preço da prata é formada em mercados de futuros e de balcão, onde há alavancagem. Veja por que a prata é mais volátil que o ouro.
- Teses sobre o uso de derivativos para influenciar preços são tratadas em manipulação do preço da prata, com o que dizem os reguladores e a Justiça americana.
- Quem compra uma barra ou moeda física não está comprando derivativo. Veja prata física ou ETF.
Perguntas frequentes
Derivativos de 844,6 trilhões significam que há 844,6 trilhões em risco?
Não. É o valor de referência dos contratos. O valor de mercado bruto no fim de 2025, segundo a ISDA, foi de 22,8 trilhões, e a exposição de crédito é menor ainda, depois da compensação.
Derivativo é a mesma coisa que aposta?
Pode servir para hedge ou para especulação. O que muda é o objetivo de quem usa. Em ambos os casos, o risco existe.
O OTC é menos regulado que a bolsa?
Há regras de reporte, de garantias e de compensação em muitas jurisdições, e a ISDA cita, por exemplo, margens depositadas. Este texto não faz um comparativo de regulação entre países.
De onde vêm esses dados?
Do BIS, que publica as estatísticas de derivativos OTC, e do resumo da ISDA, entidade do setor de derivativos. O resumo usa as estatísticas do BIS, e vale conferir o dado original.
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Fontes
- ISDA, "Key Trends in the Size and Composition of OTC Derivatives Markets in the Second Half of 2025" (julho de 2026): isda.org
- BIS, estatísticas de derivativos OTC: data.bis.org
- Silver Institute / Metals Focus, "World Silver Survey 2026" (15/04/2026): silverinstitute.org


