Terras raras: Brasil fica entre EUA e China na disputa por minerais críticos
Com a 2ª maior reserva de terras raras do mundo, o Brasil atrai estrangeiras e é cortejado por EUA e China. Setor cobra a regulamentação da nova lei.

A corrida global por terras raras colocou o Brasil em uma posição rara: a de país disputado ao mesmo tempo pelos Estados Unidos e pela China. O setor de mineração, por sua vez, cobra regras claras para a nova política nacional de minerais críticos, aprovada em setembro. A Bloomberg observa que o tema chega ao governo logo depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo (25), e que a agenda do setor, nas palavras da CEO da Anglo American no Brasil, "deve avançar independentemente do governo eleito".
Por que as terras raras importam
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares, segundo o g1; a Bloomberg inclui os drones. O g1 também cita os ímãs de alta potência, feitos com elementos como o neodímio. O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China, segundo o g1. A Bloomberg descreve o país como detentor de "uma das maiores reservas".
O ponto sensível não é só a mina, mas o processamento. De acordo com o g1, a China respondia por cerca de 85% do refino mundial desses materiais em 2025, e os Estados Unidos buscam alternativas para diminuir a dependência da produção chinesa. A Bloomberg lembra que a China é o maior parceiro comercial do Brasil.
Dinheiro estrangeiro já chegou
A Folha de S.Paulo mapeou, em reportagem de 10 de outubro, ao menos 18 empresas estrangeiras com processos minerários em andamento para pesquisar ou explorar terras raras no país. Somados, os projetos passam de US$ 3,5 bilhões (cerca de R$ 17,5 bilhões), entre investimentos já feitos e estimativas iniciais. A Austrália concentra pelo menos 11 desses grupos; Canadá e Estados Unidos têm três cada.
Entre os movimentos recentes:
- Serra Verde (Minaçu, GO): primeira mina de terras raras em operação comercial no país, desde 2024. A americana USA Rare Earth concluiu a compra do projeto, segundo a Folha. O g1 informa que uma agência do governo dos EUA fechou um acordo de financiamento de US$ 565 milhões com a empresa.
- Lynas e Meteoric (sul de Minas Gerais): a australiana Lynas anunciou no fim de setembro a compra da também australiana Meteoric Resources, em negócio de R$ 3,5 bilhões, de acordo com a Folha.
"Temos que negociar com todo mundo"
Em entrevista à Bloomberg, publicada pelo O Globo, a CEO da Anglo American no Brasil, Ana Sanches, defendeu que o país não escolha lado. "Temos que negociar com todo mundo. Não tem porque a gente escolher um lado", disse ela, que também preside o conselho diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Sanches pediu pressa na regulamentação da nova política, com critérios e prazos claros, para dar previsibilidade aos investimentos. Ela também citou como prioridades o combate à mineração ilegal, a ampliação do mapeamento geológico e um licenciamento mais previsível.
O que diz a nova lei
A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos foi sancionada em 16 de setembro, segundo o Palácio do Planalto. O objetivo declarado é agregar valor dentro do país, estimulando pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação e mineração urbana. Entre os instrumentos previstos:
- Crédito fiscal: empresas poderão converter em crédito até 20% dos gastos com beneficiamento, transformação e mineração urbana, com limite de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034, para projetos aprovados previamente pelo Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE).
- Fundo garantidor: o Fundo Garantidor da Atividade Mineral poderá receber aporte de até R$ 2 bilhões da União.
- Conselho: o CIMCE, vinculado à Presidência, reúne representantes do Executivo federal, dos demais entes federativos, do setor privado e da academia. O Planalto informou que o decreto que regulamenta sua estrutura e suas competências foi assinado junto com a lei. Segundo a Bloomberg, o colegiado tem poderes para aprovar fusões, aquisições e contratos de fornecimento, mas a política como um todo ainda não foi regulamentada.
O desafio
Segundo o g1, a disputa internacional pelas terras raras pode atrair investimentos, tecnologia e empregos qualificados para o Brasil. O desafio, como resume o g1, é o país não se limitar à extração e à exportação de matéria-prima e aproveitar esses recursos para desenvolver a própria indústria. A Serra Verde disse à Folha que a instalação de uma etapa de separação dos elementos depende de tecnologia, capital, escala, regulamentação e condições econômicas, e que o Brasil é uma das opções avaliadas.
Fontes
- g1: g1.globo.com
- O Globo / Bloomberg: oglobo.globo.com


