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Iodeto de prata: como um composto do metal é usado para semear nuvens

Em 1946, o iodeto de prata passou a ser usado para formar gelo em nuvens. Veja como a semeadura funciona e o que a ciência já sabe sobre ela.

Por Redação reau.news · · 6 min de leitura

Avião leve amarelo e branco com gerador de iodeto de prata e sinalizadores presos sob a fuselagem

A prata costuma aparecer nas notícias como joia, moeda ou componente de painel solar. Há um uso bem menos conhecido, que acontece a milhares de metros de altura: um composto do metal, o iodeto de prata, é lançado dentro de nuvens para ajudar a formar cristais de gelo. A técnica se chama semeadura de nuvens e tem cerca de 80 anos de história, com resultados que a ciência ainda estuda com cuidado.

O problema da água super-resfriada

Muitas nuvens têm gotas de água líquida mesmo em temperaturas abaixo de zero. É a chamada água super-resfriada. Para virar gelo, essas gotas precisam de um ponto de apoio, uma partícula sólida em que as moléculas de água consigam se organizar em cristal. Na natureza, esse papel cabe a grãos de poeira e outras partículas, que nem sempre existem em quantidade suficiente.

Quando o gelo se forma, os cristais crescem, ficam pesados e podem cair como neve ou, se derreterem no caminho, como chuva. A ideia da semeadura é fornecer esses pontos de apoio de forma artificial.

A descoberta de 1946

A história começa no laboratório da General Electric, nos Estados Unidos. Em 1946, o químico Vincent Schaefer mostrou que o gelo seco, colocado em uma nuvem super-resfriada, produzia cristais de gelo, resultado publicado na revista Science naquele ano.

Um colega dele, Bernard Vonnegut, foi atrás de outro caminho. Em vez de resfriar a nuvem, procurou uma substância cuja estrutura cristalina se parecesse com a do gelo, para servir de molde às moléculas de água. Segundo o relato do próprio Schaefer, publicado em 1968 no boletim da Sociedade Meteorológica Americana, em outubro de 1946 Vonnegut produziu cristais de gelo em grande número com iodeto de prata e também com iodeto de chumbo. Ele publicou a descoberta no Journal of Applied Physics em 1947.

Vonnegut contou o início dessa história em uma palestra, transcrita no Journal of Weather Modification. Segundo ele, o primeiro teste com iodeto de prata não funcionou, porque a amostra estava contaminada com nitrato de sódio, que age como anticongelante. O curioso é o que veio depois: ao produzir faíscas entre dois eletrodos feitos de moedas de prata, ele obteve cristais de gelo, mas o efeito foi sumindo e voltou com força quando acrescentou um pouco de iodo. Vonnegut também lembra que a aplicação na atmosfera foi uma surpresa para ele, que a descoberta nasceu da curiosidade e que uma partícula de iodeto de prata muito pequena, de cerca de 100 ångströms, ainda funciona bem.

Na mesma palestra, Vonnegut leu uma carta de 1968 de M. R. Block, do Instituto Max Planck, em Heidelberg, que dizia ter descoberto nos anos 1930 o poder do iodeto de prata de nuclear a água. Vonnegut escreveu que, pelo que viu, esse "provavelmente foi o primeiro trabalho" com a substância. Ou seja, 1946 marca o uso do iodeto de prata para formar gelo em nuvens, não a primeira vez que alguém notou a propriedade.

Depois vieram vários geradores. Segundo Schaefer, o tipo hoje mais comum queima uma solução de iodeto de prata em acetona com iodeto de sódio ou de potássio; havia ainda geradores que queimavam carvão impregnado com o composto.

Como a semeadura é feita hoje

O iodeto de prata pode ser liberado de duas maneiras principais. Uma é por aviões, que soltam sinalizadores (flares) que queimam e espalham partículas dentro ou perto da nuvem. A outra é por geradores instalados no solo, em encostas de montanha, que lançam a fumaça para ser levada pelo vento até as nuvens.

As partículas funcionam como núcleos de gelo. O artigo da PNAS de 2018, citado a seguir, descreve que, quando o iodeto de prata encontra a água super-resfriada em temperaturas abaixo de cerca de 7 graus negativos, espera-se que algumas gotas congelem. Esses cristais crescem e, se ficarem grandes o bastante, caem como neve.

O que a PNAS observou em Idaho

Por décadas, um dos problemas da área foi provar o que de fato acontecia dentro da nuvem. O estudo da PNAS foi feito pelo projeto SNOWIE nas montanhas Payette, em Idaho (EUA), entre janeiro e março de 2017. Os autores afirmam que, apesar de décadas de experimentos, não existiam observações diretas dessa cadeia, e apresentam radar e instrumentos de aeronaves que mostram o processo completo: iodeto de prata liberado por avião, formação de gelo, crescimento dos cristais e neve caindo na montanha.

Segundo o artigo, os sinais da semeadura apareceram dentro de 30 minutos depois da liberação do iodeto de prata, e cristais de até 8 milímetros de diâmetro foram detectados. Os autores ressaltam, porém, que os dados não respondem à pergunta sobre a eficácia da técnica, ou seja, não dizem quanta neve a mais a semeadura produz numa região ao longo de uma temporada. O artigo lembra ainda que o governo federal dos Estados Unidos praticamente abandonou o financiamento de pesquisa na área no fim dos anos 1980. O avião de semeadura foi pago pela Idaho Power Company, empresa de energia, e alguns autores são ligados à empresa; o artigo declara que não há conflito de interesses.

O que diz a Organização Meteorológica Mundial

A declaração da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre modificação do tempo, publicada em 14 de junho de 2025 (com informações até junho de 2024), diz que a entidade não promove nem desencoraja a prática. A OMM afirma que é impossível criar sistemas de nuvens que chovam, alterar padrões de vento ou eliminar fenômenos severos, e que tecnologias que prometem efeitos dramáticos não têm base científica sólida e devem ser vistas com desconfiança.

Segundo a OMM, há programas operacionais de dispersão de nevoeiro e de aumento de chuva ou neve e supressão de granizo em mais de 50 países, mas os resultados costumam ser difíceis de confirmar com segurança. A organização aponta avanços baseados em evidência na semeadura de nuvens de inverno sobre montanhas, justamente o tipo estudado em Idaho. Já em nuvens convectivas, de dinâmica complexa e muita variação natural de chuva, é difícil identificar o efeito estatisticamente; esse caso é tratado pela OMM na semeadura higroscópica, que usa outro tipo de partículas, e não no iodeto de prata.

A declaração cita ainda que a dispersão de nevoeiro super-resfriado é uma técnica bem estabelecida, viável em certas condições meteorológicas. Já para a modificação de furacões não há evidência aceita. Na supressão de granizo, os experimentos ainda não bastam para aceitar com convicção os fundamentos da técnica, e as tentativas com núcleos higroscópicos não deram resultados demonstráveis.

E o impacto no ambiente?

Como se trata de um composto de prata espalhado na atmosfera, a dúvida é natural. A OMM afirma que estudos publicados não mostraram impacto significativo na saúde humana ou no ambiente do iodeto de prata e de outros agentes comuns usados em operações passadas. A entidade ressalva que planos com quantidade bem maior, ou com um agente novo, precisam de avaliação própria, e que efeitos não intencionais, como os a favor do vento, foram sugeridos em alguns estudos e pedem mais investigação.

Um uso discreto da prata

A semeadura de nuvens é um bom exemplo de como a química da prata aparece em lugares inesperados. O mesmo elemento que já foi base da fotografia em filme e que hoje está em contatos elétricos e painéis solares também serve de molde para cristais de gelo, graças a uma semelhança de estrutura que Vonnegut foi buscar há cerca de oito décadas.

Fontes

  • Organização Meteorológica Mundial, "WMO Statement on Weather Modification" (14/06/2025): wmo.int
  • French, J. R. et al., "Precipitation formation from orographic cloud seeding", PNAS 115(6), 2018: pnas.org
  • Schaefer, V. J., "The early history of weather modification", Bulletin of the American Meteorological Society 49(4), 1968: doi.org
  • Schaefer, V. J., "The Production of Ice Crystals in a Cloud of Supercooled Water Droplets", Science 104, 457 (1946): doi.org
  • Vonnegut, B., "Early experiments with silver iodide" (palestra transcrita), Journal of Weather Modification 8, 1976: journalofweathermodification.scholasticahq.com
  • Vonnegut, B., "The nucleation of ice formation by silver iodide", Journal of Applied Physics 18, 593 (1947): pubs.aip.org

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