Serra Pelada: a história do maior garimpo a céu aberto do Brasil
Nos anos 1980, Serra Pelada reuniu dezenas de milhares de garimpeiros no Pará e rendeu toneladas de ouro. Conheça a história da cava que virou lago.

Poucas imagens do Brasil dos anos 1980 ficaram tão marcadas quanto a de Serra Pelada: um buraco imenso no sul do Pará, tomado por milhares de homens cobertos de lama, subindo escadas com sacos de terra nas costas. Por pouco mais de uma década, o lugar foi o maior garimpo a céu aberto do país e virou símbolo de uma corrida do ouro que mexeu com a economia, a política e o imaginário nacional.
A descoberta
Segundo reportagem da Gazeta Mercantil reproduzida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) em 2008, o ouro foi encontrado em 1976 por geólogos que pesquisavam a Serra dos Carajás, no sudeste do Pará. A Vale, então detentora do direito de exploração da área, confirmou a informação depois. A notícia se espalhou e, a partir de 1977, a mina passou a receber garimpeiros. A data da corrida varia conforme a fonte: um texto da Folha de S.Paulo sobre as fotos de Sebastião Salgado situa a chegada dos primeiros garimpeiros no fim de 1979.
Entre as muitas lendas sobre a descoberta, a mais aceita, segundo texto do portal IG reproduzido pelo IBRAM, diz que Genésio Ferreira da Silva, antigo dono de terras na região, teria achado ouro ao cavar um buraco para fazer uma cerca, no fim dos anos 1970. No início de 1980, de acordo com a Gazeta Mercantil, já havia cerca de 30 mil garimpeiros no local.
A intervenção do governo
Com o garimpo crescendo sem controle, o governo federal interveio em 21 de maio de 1980. O comando ficou com Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió. Segundo a Gazeta Mercantil, as áreas de lavra e os garimpeiros foram registrados pela Receita Federal, e todo o ouro (e também o paládio encontrado ali) passou a ser vendido à Caixa Econômica Federal.
Em entrevista ao IG, Curió contou que, para controlar a situação, proibiu a entrada de mulheres, de bebidas alcoólicas e o uso ostensivo de armas. Como mulheres e crianças não podiam entrar no garimpo, ficaram no caminho, e assim surgiu Curionópolis, cidade batizada em referência ao apelido dele. Em 2010, o IG dava à cidade cerca de 17 mil habitantes.
Como o garimpo funcionava
O terreno era dividido em pequenos lotes, os barrancos. De acordo com o texto de Leão Serva publicado na Folha de S.Paulo em 2019 e reproduzido pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), eram mais de 200 lotes de cerca de 2 por 3 metros, sorteados entre 1979 e 1980. Cada barranco tinha um dono, que contratava trabalhadores.
O meia-praça definia quem iria escavar cada trecho e, segundo a mesma reportagem, recebia 5% do ouro encontrado no lote. Na base da pirâmide estavam os carregadores, chamados de "formigas", que levavam para fora sacos de aproximadamente 40 quilos de terra pelas escadas de madeira apelidadas de "adeus, mamãe". O fotógrafo Sebastião Salgado registrou essa rotina em 1986, em imagens que rodaram o mundo e estão no livro "Gold", da editora Taschen.
O auge
Segundo a Gazeta Mercantil, os depósitos de ouro da superfície se esgotaram em 1981 e o governo fez obras para manter a extração manual, com a criação de uma cava. Isso permitiu o apogeu do garimpo em 1982 e 1983.
Os números do auge variam conforme a fonte. A Gazeta Mercantil, reproduzida pelo IBRAM, fala em cerca de 80 mil garimpeiros, e O Globo também cita 80 mil homens. Um texto do IG reproduzido pelo IBRAM diz "mais de 100 mil", e Salgado fala em "mais de 50 mil trabalhadores" na reportagem da Folha. Não há um número único confirmado.
As estimativas de produção também diferem. O Globo registra um recorde de 13,9 toneladas em 1983, ouro que o país usou para pagar à vista suas importações de petróleo, e cerca de 40 toneladas entre 1980 e 1988. Os textos reproduzidos pelo IBRAM citam 14 toneladas em 1983 e totais de 42 a 43 toneladas em dez anos de garimpo. O Globo também afirma que a descoberta de Serra Pelada, em 1980, deu início a um "segundo ciclo do ouro" na região amazônica; o primeiro, segundo o jornal, foi na década de 1950, na área de Itaituba, no Pará.
O declínio
Segundo a Gazeta Mercantil, a Vale tentava recuperar a concessão e foi indenizada pelo governo, que pagou cerca de US$ 60 milhões. A produção ficou em torno de 2,6 toneladas por ano entre 1984 e 1987. Em 1987, os garimpeiros protestaram pedindo que o governo aprofundasse a cava, que já tinha quase 200 metros de profundidade. A produção continuou caindo e, em 1990, era de 250 quilos (o IG diz "menos de 250 quilos").
Em março de 1992, segundo a Gazeta Mercantil, o governo não renovou a autorização e a concessão voltou à Vale. O IG, por sua vez, descreve a desativação oficial como resultado de um decreto do então presidente Fernando Collor.
O que restou
A cava em forma de feijão, com cerca de 180 metros de profundidade segundo o IG (a Folha fala em 200 metros), se encheu de água. Uma reportagem do Terra reproduzida pelo IBRAM em 2010 descreve um açude contaminado por mercúrio, depois que as escavações atingiram o lençol freático. Na época, cerca de 6 mil pessoas viviam no entorno da antiga cava, muitas em situação de miséria, segundo o texto.
A disputa pelo que sobrou continuou. Em 2002, a Vale abriu mão da concessão de 100 hectares da área. Em 2007, cerca de 45 mil garimpeiros se organizaram na Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp), e o alvará de pesquisa foi entregue a uma das cooperativas locais, a Coomigasp, naquele ano. A reportagem do Terra, de 2010, mostra que muitos antigos garimpeiros ainda guardavam a esperança de voltar a encontrar ouro ali.
Um capítulo que ainda ecoa
Serra Pelada reuniu, num só lugar, a promessa de riqueza rápida, o trabalho pesado e o custo ambiental da mineração sem planejamento. As fotos de Salgado ajudaram a eternizar a cena, e o lago da antiga cava, em Curionópolis, segue como lembrança física de um dos episódios mais marcantes da história do ouro no Brasil.
Fontes
- RAISG (reprodução de texto de Leão Serva, Folha de S.Paulo, 07/07/2019), "Sebastião Salgado na Amazônia: Serra Pelada": raisg.org


