Basileia III e o ouro: o que as regras dizem de fato
Os três números do ouro em Basileia III (0%, 20% e 85%), ouro alocado e não alocado e o que o EBA concluiu sobre o mercado de metais em 2021.

De tempos em tempos, circula na internet a ideia de que as regras bancárias de Basileia III teriam mudado o status do ouro de um dia para o outro e "acabado" com o mercado de ouro de papel. Em 2025, a versão mais comum dizia que o metal passaria a ser tratado como ativo de primeira linha em 1º de julho. Este texto separa o que está nas regras do que é boato, com base nos textos do Comitê de Basileia (BCBS), em documentos da LBMA, do World Gold Council (WGC), do Banco da Inglaterra e da Autoridade Bancária Europeia (EBA). Ele explica, não prevê preço e não é aconselhamento financeiro.
O que Basileia III controla
O Comitê de Basileia, que funciona junto ao Banco de Compensações Internacionais (BIS), escreve padrões para os grandes bancos do mundo. Cada país adota esses padrões em sua própria lei. Duas regras interessam aqui, e as duas são sobre a liquidez e o financiamento dos bancos:
- LCR (índice de cobertura de liquidez): o banco precisa ter ativos líquidos de alta qualidade, os chamados HQLA, para atravessar um período de estresse de um mês.
- NSFR (índice de financiamento estável líquido): compara o financiamento estável que o banco tem (ASF) com o financiamento estável que seus ativos exigem (RSF). O resultado precisa ser de pelo menos 100%, olhando um horizonte de 12 meses.
Há ainda as regras de capital, que atribuem a cada ativo um peso de risco. Misturar essas três famílias de regras é a origem da maior parte da confusão sobre o ouro.
Os três números do ouro: 0%, 20% e 85%
Em 14 de maio de 2025, a LBMA publicou um texto para corrigir informações enganosas sobre o assunto. Ele ajuda a entender por que três percentuais diferentes aparecem nas manchetes:
| Número | O que é de fato | Regra em que aparece |
|---|---|---|
| 0% | Peso de risco de capital para ouro em barras guardado nos cofres do próprio banco ou em regime alocado, na medida em que lastreado por passivos em ouro (tratado como caixa) | Regras de capital; no Comitê de Basileia, é opção a critério de cada país (CRE20.35, nota 14) |
| 20% | Desconto (haircut) de supervisão aplicado ao ouro dado como garantia, no método abrangente de mitigação de risco de crédito (prazo de 10 dias úteis, com reajuste diário de margem); a LBMA associa esse percentual às câmaras de compensação | Regras de risco de crédito (CRE22.49) |
| 85% | Fator de financiamento estável exigido ("RSF") para mercadorias negociadas fisicamente, categoria que inclui o ouro | NSFR (NSF30.31, item 4) |
Dados: LBMA, "Gold and HQLA: Correcting Misleading Online Information" (14/05/2025); World Gold Council, "You asked, we answered: Does gold qualify as an HQLA under Basel III?" (junho de 2025); Comitê de Basileia, Basel Framework (CRE20.35, nota 14; CRE22.49; NSF30.31 e NSF30.32).
A LBMA afirma que o peso zero para ouro em barras nos cofres do banco vale desde Basileia I, de 1988. Na União Europeia, o artigo 134, n.º 4, do Regulamento (UE) 575/2013 (CRR) aplica o peso zero com a mesma condição (ouro lastreado por passivos em ouro) e é obrigatório para os bancos da UE.
O fator de 85% vem da regra do NSFR para mercadorias negociadas fisicamente (NSF30.31, item 4), categoria que inclui o ouro. Isso mostra que o ouro não recebeu um tratamento específico "contra" ele: ele está na categoria das mercadorias físicas, e não na dos ativos líquidos de alta qualidade, e a lista de HQLA de Nível 1 do LCR (LCR30) não inclui ouro. Quando o ouro está dado em garantia por um ano ou mais, o fator sobe a 100% (NSF30.32, item 1).
"Tier 1" não é "Nível 1"
Boa parte dos boatos nasce de uma troca de palavras. "Tier 1" é um conceito de capital: o patamar mais sólido do capital de um banco. "Nível 1" (Level 1) é uma categoria de liquidez: a dos HQLA mais seguros, como reservas em bancos centrais e títulos soberanos de risco baixo. Em Basileia, o ouro em barras guardado nos cofres do próprio banco ou em regime alocado pode receber peso de risco de capital zero, desde que lastreado por passivos em ouro e a critério de cada país (na UE, a regra é obrigatória). Isso não faz dele um ativo de Nível 1 na regra de liquidez. A LBMA afirmou, em 14 de maio de 2025, que não havia sido feito nem era esperado nenhum anúncio oficial de reclassificação.
Ouro alocado e não alocado
Conta alocada é aquela em que o cliente é dono de barras específicas, identificadas por número de série. Segundo o Banco da Inglaterra, que oferece esse serviço principalmente a bancos centrais, na custódia alocada o cliente mantém a propriedade das barras, e não apenas um crédito em peso de ouro. Na conta não alocada, o titular tem um crédito contra o banco, e não barras identificadas.
É aqui que o NSFR pode pesar: manter ouro próprio no balanço exige financiamento estável de 85% do valor. O World Gold Council avaliou, em análise de junho de 2021 sobre o NSFR, que isso não deveria levar a uma grande migração para o ouro alocado, e que o mercado não alocado de Londres, usado para liquidar negócios no atacado, continuaria funcionando.
A exceção criada pelo Reino Unido
Para evitar que o fator de 85% atrapalhasse os bancos que compensam e liquidam o ouro em Londres, a Autoridade de Regulação Prudencial (PRA) criou em 2021 uma permissão para "metais preciosos interdependentes". Quem a recebe pode aplicar fator zero ao estoque físico sem gravames, na medida em que ele se equilibra com depósitos de clientes em metal. Os membros de compensação da LPMCL eram Citi, HSBC, ICBC Standard Bank, JPMorgan e UBS. Na mesma análise, o WGC descreveu a medida como estreita e possivelmente temporária. A Suíça adotou uma abordagem semelhante, pela FINMA.
O que o EBA mediu em 2021
Na União Europeia, a lei bancária (CRR2, artigo 510) mandou o EBA verificar o efeito do NSFR sobre o mercado de metais preciosos. O relatório, de novembro de 2021, concluiu que o impacto foi limitado. Alguns números do documento:
- Os ativos sujeitos ao fator de 85% somavam, nas estimativas do estudo, no máximo EUR 2,1 bilhões na UE e EUR 2,9 bilhões no Reino Unido.
- Nos dados de supervisão (COREP) de junho de 2021, eram EUR 3,4 bilhões em 497 bancos, com RSF de EUR 2,9 bilhões, em média 0,05% do RSF total.
- O volume negociado por semana no mercado da LBMA era da ordem de EUR 300 bilhões.
- Reduzir o fator de 85% para 0% elevaria o NSFR agregado em apenas 8 pontos-base.
- O coeficiente de variação das transferências líquidas de ouro entre os bancos membros da LPMCL ficou em 31,6% antes de 2010 e 12,9% depois; no caso da prata, 48,5% e 36,1%.
O EBA concluiu que reduzir o fator, mesmo a 0%, teria efeito desprezível sobre o NSFR agregado e não tornaria o índice menos rigoroso.
Em Londres: custódia e filas
O Banco da Inglaterra informa em sua página sobre ouro (atualizada em 12 de março de 2026) que é o segundo maior custodiante do mundo, depois do Federal Reserve de Nova York. São mais de 400 mil barras, em nove cofres, e o próprio banco é dono de apenas duas delas, o resto pertence a clientes. A CNN noticiou em 7 de fevereiro de 2025 que todas as janelas de retirada estavam reservadas, porque o prêmio do ouro em Nova York sobre Londres levou operadores a enviar barras aos EUA. A reportagem atribui a fila à diferença de preço entre Nova York e Londres. Nas fontes consultadas para este texto, nenhuma liga esse episódio a Basileia III.
O debate sobre HQLA continua
Em 31 de março de 2026, o WGC e a LBMA lançaram um site conjunto (hqla.gold) para defender que o ouro seja reconhecido como HQLA de Nível 1. É uma posição de entidades do setor, e não do Comitê de Basileia. O WGC afirma, em estudo de junho de 2025, que o mercado de balcão de ouro movimenta mais de US$ 120 bilhões por dia. Do outro lado, em relatório de 2013 sobre a definição de HQLA, o EBA não recomendou incluir o ouro na lista, com três argumentos: o ouro não era aceito como garantia nas operações usuais dos bancos centrais europeus, não era negociado em bolsa e não havia evidência de uso como garantia em operações de recompra. O próprio EBA registrou que não dispunha de dados de volume diário de negociação do ouro, e o WGC atribui a decisão de então à falta desses dados.
Vale lembrar que WGC e LBMA são entidades do setor, com interesse no resultado. Os argumentos são públicos e podem ser lidos, mas a decisão cabe ao Comitê de Basileia e aos reguladores de cada país. Até 28 de outubro de 2026, não encontramos nas fontes consultadas nenhum anúncio de mudança.
Como ler a próxima manchete
- Veja qual regra está em jogo: capital, LCR, NSFR ou margem.
- Veja se a fonte é um regulador ou uma entidade do setor.
- Desconfie de datas "mágicas" sem comunicado oficial. Reclassificar um ativo exige texto do comitê e adoção em cada jurisdição.
- Para entender o que são os contratos negociados fora de bolsa, veja derivativos de balcão (OTC): o que são.
Para entender o motivo de bancos centrais manterem ouro em reservas, veja por que bancos centrais compram ouro.
Em resumo
Em Basileia III, o ouro aparece com três números diferentes: 0% (peso de capital, a critério de cada país, para ouro em barras nos cofres do banco ou alocado e lastreado por passivos em ouro), 20% (desconto de supervisão do ouro dado como garantia) e 85% (fator do NSFR). Ele não foi reclassificado como HQLA de Nível 1: a LBMA disse em 14/05/2025 que não havia anúncio oficial. O EBA, em 2021, concluiu que mudar o fator do NSFR teria efeito desprezível sobre o índice e viu impacto limitado sobre o mercado de metais, e WGC e LBMA seguem pedindo mudança em 2026.
Fontes
- LBMA — Gold and HQLA: Correcting Misleading Online Information (14/05/2025): lbma.org.uk
- World Gold Council — You asked, we answered: Does gold qualify as an HQLA under Basel III? (junho de 2025): gold.org
- World Gold Council — Basel III and the Gold Market (junho de 2021): gold.org
- World Gold Council — Gold: an HQLA in all but name (junho de 2025): gold.org
- LBMA — WGC and LBMA Launch Joint HQLA Website (31/03/2026): lbma.org.uk
- EBA — Report on the impact of the NSFR on the functioning of precious metals markets (EBA/Rep/2021/34, novembro de 2021): eba.europa.eu
- EBA — Report on the definition of HQLA (LCR, 2013): eba.europa.eu
- LBMA — PRA: Clearing Banks May Now Apply for Exemption (2021): lbma.org.uk
- Comitê de Basileia — Basel Framework, CRE20 (peso de risco, nota 14 do parágrafo 20.35): bis.org
- Comitê de Basileia — Basel Framework, CRE22 (haircuts de supervisão, parágrafo 22.49): bis.org
- Comitê de Basileia — Basel Framework, NSF30 (fatores de RSF, parágrafos 30.31 e 30.32): bis.org
- Comitê de Basileia — Basel Framework, LCR30 (ativos líquidos de alta qualidade): bis.org
- União Europeia — Regulamento (UE) 575/2013 (CRR), artigo 134, n.º 4: eur-lex.europa.eu
- Banco da Inglaterra — Gold (página atualizada em 12/03/2026): bankofengland.co.uk
- CNN Business — Gold withdrawal slots booked up at Bank of England over Trump's tariff threats (07/02/2025): cnn.com


