Brasil tem 20,3 milhões de endividados de risco, alta de 75% em cinco anos, diz o Banco Central
Relatório do BC mostra 20,3 milhões de endividados de risco em junho, 17% dos devedores, e comprometimento de renda no maior nível da série.

O número de brasileiros em situação de endividamento de risco chegou a 20,3 milhões em junho de 2026, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do Banco Central, divulgado na terça-feira (27). O grupo equivale a 17% das pessoas com dívidas no Sistema Financeiro Nacional (SFN), e o relatório fala em crescimento de 75% em relação a junho de 2021, quando a fatia era de 9,7%, segundo o Valor.
Quem entra na conta
O BC considera endividado de risco quem se encaixa em pelo menos dois de quatro critérios, conforme nota do próprio relatório:
- atraso de mais de 90 dias em parcelas de crédito;
- mais de 50% da renda mensal comprometida com o pagamento das dívidas;
- uso ao mesmo tempo de cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo;
- renda que sobra, depois de pagar as dívidas, abaixo da linha de pobreza.
Entram no cálculo só dívidas com o SFN, e não contas de luz, por exemplo, observa o Valor Econômico, que lembra que o conceito de superendividamento, mais amplo, inclui esse tipo de dívida. A Agência Brasil lembra que estar nesse grupo não significa estar inadimplente, mas indica maior fragilidade financeira.
Renda cada vez mais comprometida
O relatório descreve a capacidade de pagamento das famílias como "desafiadora", com o maior nível da série histórica de comprometimento de renda. Em entrevista, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, disse que a capacidade de pagamento está mais difícil por causa do comprometimento de renda, que, segundo o Valor, chegou a 28,7% tanto em junho quanto em julho, no ponto mais alto da série, puxado pelo crédito não consignado e pelo cartão de crédito.
O peso é maior para quem ganha menos. Segundo a Agência Brasil, entre as pessoas com renda de até dois salários mínimos, grupo de 61,2 milhões de pessoas, 42% da renda está comprometida com dívidas, e 15% da renda vai só para o cartão de crédito. Na faixa acima de dez salários mínimos, o comprometimento é de 18,6%. Os percentuais do Valor e da Agência Brasil vêm de reportagens diferentes, e a metodologia de cada um não é detalhada nelas; por isso não são comparados aqui.
O relatório afirma: "As famílias utilizaram o aumento da renda disponível para ampliar seu endividamento, com maior demanda por modalidades mais onerosas, como cartão de crédito e crédito não consignado". A proporção de endividados de risco subiu pelo quinto semestre seguido, segundo o Valor: era de 14,7% em junho de 2025, de 16,5% em dezembro e de 17% em junho de 2026.
Digitalização e apostas
O REF afirma que a digitalização dos serviços financeiros amplia a exposição a fraudes, golpes, ataques cibernéticos e modelos de negócio que podem explorar comportamentos impulsivos dos consumidores. Em outro trecho, o relatório cita pesquisa do BC segundo a qual a digitalização ampliou significativamente a exposição de consumidores de menor renda a ofertas de crédito, o que contribui para intensificar o endividamento.
O relatório cita ainda "a então permitida expansão das apostas de quota fixa", as bets, como fator adicional de pressão sobre o orçamento das famílias, com gasto mensal estimado em R$ 24,1 bilhões pelo Comsefaz, o comitê dos secretários estaduais de Fazenda. As bets estão proibidas desde a Medida Provisória 1.394/2026, de 25 de setembro, que ainda precisa ser votada pelo Congresso.
O que vem pela frente
Na sexta-feira (23), o BC já havia anunciado medidas para restringir ofertas inadequadas de crédito, segundo a Agência Brasil: as instituições deverão oferecer mecanismos para bloquear publicidade e propostas ativas de crédito, e, para consumidores vulneráveis ou em risco de endividamento excessivo, as ofertas dependerão de autorização prévia, específica e inequívoca. As regras de bloqueio entram em vigor em 31 de março de 2027, e outras medidas, como painéis digitais com informações sobre dívidas e limites para ofertas de empréstimo durante transações iniciadas pelo Pix, estão previstas para julho de 2027.
Na terça, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que a instituição pretende adicionar medidas ainda este ano, com prioridade para consumidores que já usam o crédito rotativo do cartão ou têm atrasos significativos. "Pretendemos adicionar medidas ainda este ano", afirmou, segundo a Agência Brasil. Mesmo com o endividamento alto, o relatório conclui que não há risco relevante para a estabilidade financeira, e o sistema segue com capitalização e liquidez confortáveis.


