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Por que as moedas têm serrilha na borda? A história vem da prata

A serrilha nasceu para impedir que raspassem prata e ouro das moedas. Conheça a história, de Carlos II e Isaac Newton às moedas de real no seu bolso.

Por Redação reau.news · · 5 min de leitura

Frente e verso de um xelim de prata de Jaime I, ao lado de uma régua de escala
Xelim de prata de Jaime I da Inglaterra (1604–1625), cunhado a martelo e com a borda bem aparada: o tipo de fraude que a serrilha ajudou a acabar.

Pegue uma moeda de 10 ou de 25 centavos e passe a unha pela borda. Aquelas ranhuras finas, a serrilha, parecem só um detalhe de acabamento. Mas elas têm uma origem bem concreta, ligada a uma época em que as moedas eram feitas de prata e ouro de verdade e valiam pelo metal que carregavam. A serrilha nasceu como uma defesa contra um tipo de fraude tão antigo quanto o próprio dinheiro metálico.

O problema: moedas que encolhiam

Durante séculos, a moeda de prata ou de ouro valia, em grande parte, pelo peso do metal precioso. Isso criava uma tentação óbvia. Quem tinha uma tesoura ou uma lima podia raspar um pouco da borda, juntar as aparas e ainda passar a moeda adiante pelo valor de face. A prática ficou conhecida em inglês como clipping, algo como "cerceio" ou "aparo".

O problema era agravado pelo jeito como as moedas eram fabricadas. Até o século XVII, na Inglaterra, elas eram cunhadas a martelo: um disco de metal era colocado entre dois cunhos e golpeado à mão. O resultado era irregular, com bordas tortas e tamanhos variados. Numa moeda que já nascia sem formato perfeito, era difícil notar que alguém tinha tirado uma lasca. A moeda da foto acima, um xelim do rei Jaime I, mostra bem como uma peça podia circular depois de bem aparada.

A virada: máquinas e bordas marcadas

A solução veio com a mecanização. O Museu da Real Casa da Moeda britânica (Royal Mint Museum) conta que, sob o rei Carlos II, a casa da moeda de Londres, que funcionava dentro da Torre de Londres, trocou o martelo por máquinas. Laminadores movidos a cavalo deixavam o metal com espessura uniforme, e prensas de parafuso cunhavam cerca de 30 moedas por minuto.

O engenheiro Pierre Blondeau foi contratado para trazer outra novidade: um processo para marcar as bordas, seja com letras, seja com ranhuras. O método era tão valioso que os funcionários faziam juramento de segredo, mantido até 1811, segundo o museu. A produção mecanizada começou em fevereiro de 1662, primeiro com moedas de ouro.

A lógica era simples. Uma moeda redonda, de tamanho padronizado e com a borda marcada denunciava qualquer tentativa de raspar metal: a serrilha ou as letras desapareciam no trecho aparado. Um mandado real de 5 de fevereiro de 1662, transcrito pelo projeto sobre Newton da Universidade de Oxford, determinava que as moedas maiores de prata levassem na borda a inscrição latina DECUS ET TUTAMEN, que o Royal Mint Museum traduz como "um ornamento e uma salvaguarda". As moedas mais finas, sem espessura para receber letras, ganhavam ranhuras retas ou cruzadas.

A frase durou séculos. Segundo o Royal Mint Museum, ela voltou a ser usada em 1983, na borda da moeda de uma libra.

Isaac Newton, o guarda das moedas

A serrilha não acabou com o problema de uma hora para outra, porque as moedas antigas, cunhadas a martelo, continuaram circulando ao lado das novas. No fim do século XVII, a situação na Inglaterra era grave. O projeto de Oxford sobre Newton e a casa da moeda relata que as moedas boas eram derretidas e vendidas, inclusive em Amsterdã, enquanto as aparadas ficavam em circulação.

Em janeiro de 1696, o Parlamento aprovou uma lei para "remediar o mau estado da moeda": todo o dinheiro de prata antigo seria recolhido, derretido e recunhado no padrão da era elisabetana. Foi a chamada Grande Recunhagem, que contou até com casas da moeda provinciais em Bristol, Exeter, Norwich, York e Chester. Segundo o projeto de Oxford, cerca de 6,8 milhões de libras em prata foram cunhados entre 1696 e 1699.

É aí que entra Isaac Newton. O físico assumiu o cargo de Warden (algo como superintendente) da casa da moeda na primavera de 1696 e, segundo o Royal Mint Museum, a recunhagem foi concluída em três anos. A partir do Natal de 1699, Newton virou Master, o cargo mais alto, e ficou nele até morrer, em 1727. Ele levou a sério a caça aos falsificadores e aparadores: chegou a interrogar criminosos pessoalmente e processou William Chaloner, um dos falsificadores mais conhecidos da época.

Vale um esclarecimento, porque a história costuma ser contada de forma simplificada: Newton não inventou a serrilha. As bordas marcadas já existiam na Inglaterra desde 1662, mais de 30 anos antes de ele chegar à casa da moeda. O papel dele foi garantir que a nova moeda, padronizada e protegida, substituísse de vez a antiga.

A ideia atravessou o oceano

Outros países seguiram o mesmo caminho. Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos (CRS) lembra que a Casa da Moeda americana adicionou bordas serrilhadas à moeda de dez centavos, o dime, ainda nos anos 1790, justamente para desencorajar quem limava a prata das bordas. Hoje o dime não tem mais prata, mas a serrilha continua lá.

E as moedas brasileiras?

As moedas do real não são de prata nem de ouro, então ninguém ganharia nada raspando suas bordas. Mesmo assim, a tradição se mantém, e a borda virou também um elemento de identificação. Segundo o Banco Central do Brasil, na segunda família do real as moedas de 1 e de 5 centavos têm a borda lisa; as de 10 e de 25 centavos são serrilhadas; a de 50 centavos traz a legenda "ORDEM E PROGRESSO" e "BRASIL" gravada na borda; e a de 1 real tem serrilha intermitente, com trechos ranhurados e trechos lisos.

Um detalhe que conta uma história

Da próxima vez que a unha deslizar pela borda de uma moeda, vale lembrar: aquelas ranhuras são herança de um tempo em que cada moeda era um pedacinho de metal precioso e cada lasca roubada fazia diferença. A serrilha é uma das marcas mais discretas, e mais duradouras, da relação entre o dinheiro e a prata.

Fontes

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