Metais

Taça de Licurgo: o vidro romano que muda de cor graças ao ouro e à prata

A Taça de Licurgo, do século IV, fica verde ou vermelha conforme a luz. O segredo são nanopartículas de ouro e prata. Agora, Sheffield refez o vidro.

Por Redação reau.news · · 5 min de leitura

Taça de Licurgo, de vidro romano, exposta no British Museum
A Taça de Licurgo exposta na Sala 41 do British Museum, em Londres.

Numa vitrine da Sala 41 do British Museum, em Londres, está uma taça de vidro com cerca de 1.600 anos que parece ter um truque escondido. Iluminada de frente, ela é verde-jade e opaca. Quando a luz atravessa o vidro por trás, a mesma peça fica vermelho-rubi. A Taça de Licurgo é um dos objetos mais estudados da Antiguidade, e o segredo dessa mudança de cor está em dois metais preciosos espalhados no vidro em quantidades minúsculas: ouro e prata.

O assunto voltou ao noticiário nesta semana. Em 26 de outubro de 2026, a Universidade de Sheffield, no Reino Unido, anunciou que uma técnica da instituição conseguiu reproduzir em quantidade o vidro que dá à taça seu efeito, algo que pesquisadores tentavam havia décadas.

Uma obra-prima do fim do Império Romano

Segundo o registro do British Museum, a taça é do período romano tardio, do século IV d.C. Tem 15,9 centímetros de altura, 13,2 centímetros de diâmetro e pesa cerca de 700 gramas. Ela pertence a uma família rara de peças chamadas taças-gaiola (diatreta): o artesão partia de um bloco grosso de vidro e ia cortando e desbastando até deixar as figuras quase soltas da parede, presas só por pequenas pontes. A Universidade de Sheffield cita que existem apenas cerca de 40 taças-gaiola desse período, e só esta tem a mudança de cor tão marcante.

As figuras contam um mito. Licurgo, rei da Trácia, aparece preso e sufocado por galhos de videira, castigo por ter atacado seguidores de Dionísio, o deus do vinho. Há quem veja nas duas cores uma referência ao amadurecimento da uva, do verde ao vermelho, o que combinaria com o tema. É uma hipótese citada por especialistas, sem prova definitiva.

O aro e o pé, de prata dourada, segundo o British Museum, e decorados com folhas de videira, não são romanos: foram acrescentados muito depois. O British Museum registra que o pé foi retirado em 1958 e só reunido à taça novamente em 1973.

De onde vêm o verde e o vermelho

Durante muito tempo não se sabia nem se a peça era de vidro ou de pedra semipreciosa. Os primeiros estudos completos, por volta de 1950, confirmaram que era vidro, mas a explicação da cor demorou mais. O mistério só foi resolvido de vez em 1990, quando pesquisadores ingleses examinaram fragmentos com microscópio eletrônico de transmissão, contou a revista Smithsonian.

Eles encontraram, espalhadas no vidro, partículas de uma liga de prata e ouro com dezenas de nanômetros de diâmetro. Um nanômetro é um milionésimo de milímetro, então essas partículas são milhares de vezes menores do que um grão de sal ou de areia. O arqueólogo Ian Freestone e colegas publicaram um artigo sobre a taça em 2007, na revista Gold Bulletin. Segundo o resumo do artigo de Freestone e colegas, as partículas têm de 50 a 100 nanômetros, com proporção aproximada de sete partes de prata para três de ouro, além de um pouco de cobre.

As quantidades são irrisórias. Estudos citados na literatura estimam algo em torno de 330 partes por milhão de prata e 40 partes por milhão de ouro no vidro. É tão pouco que dificilmente os artesãos poderiam ter dosado isso de propósito na peça final. Uma explicação proposta é que os metais tenham sido adicionados em maior quantidade a um volume grande de vidro, depois diluído.

A física por trás da cor tem a ver com o tamanho das partículas, que é parecido com o comprimento de onda da luz visível. Os elétrons do metal "vibram" quando a luz chega e interagem de forma diferente com cada cor. Lisa Hollands, a técnica de Sheffield que refez o vidro, explicou ao jornal The Guardian que, quando a luz atravessa o vidro, as partículas de ouro e prata bloqueiam o azul e o verde e deixam passar o vermelho e o laranja. Quando a luz bate e volta, as partículas espalham a luz e o vidro aparece verde e opaco.

Os romanos sabiam o que estavam fazendo?

Essa é uma das grandes discussões em torno da taça. A Smithsonian ouviu Freestone dizer que a mistura exata dos metais sugere conhecimento do processo. Por outro lado, outros fragmentos romanos com efeito parecido variam muito na cor, o que indica que o resultado não era fácil de controlar.

A experiência de Sheffield reforça esse ponto. Hollands trabalhou com a professora Caroline Jackson, especialista em vidro romano, e testou diferentes fornos, matérias-primas, níveis de oxigênio e até a adição de açúcar até chegar a um vidro verde por reflexão e vermelho por transmissão. Freestone, ao comentar o trabalho, disse ao Guardian que a cor dependia muito da posição do vidro dentro do forno, o que sugere que seria muito difícil para os romanos controlar o resultado. Na avaliação dele, com a Taça de Licurgo "eles acertaram em cheio".

Freestone também lembrou que um vidro de cor semelhante já tinha sido reproduzido nos anos 1960, mas que o trabalho atual chega muito mais perto dos tons originais. Uma escultura feita pelo artista Elliot Walker com o novo vidro, inspirada na taça e no Atlas Farnese, será exibida no Festival of the Mind, em Sheffield, de 6 a 15 de novembro de 2026, e depois ficará no Museu do Vidro Turner, da universidade.

Uma tecnologia antiga com uso moderno

O fenômeno que colore a taça, a interação da luz com nanopartículas de metal, virou objeto de pesquisa em sensores e diagnóstico. A Smithsonian relatou, em 2013, o trabalho de uma equipe da Universidade de Illinois que imitou o efeito numa placa com bilhões de minúsculos poços cobertos de ouro ou prata, capaz de mudar de cor conforme o líquido colocado. Em Sheffield, a universidade diz que o conhecimento adquirido deve alimentar estudos de novos materiais fotônicos e de vidros para imobilizar resíduos radioativos.

Para quem se interessa por metais, a taça é um lembrete curioso: ouro e prata não servem só para joias, moedas e barras. Em escala nanométrica, eles mudam de comportamento e podem até pintar um vidro de duas cores ao mesmo tempo.

Fontes

  • British Museum, registro do objeto 1958,1202.1 (The Lycurgus Cup): britishmuseum.org
  • Universidade de Sheffield, "Technician cracks 1,600-year-old mystery to replicate Roman masterpiece" (26/10/2026): sheffield.ac.uk
  • The Guardian, Dalya Alberge, "'It's magic': scientists rediscover how to make ancient Roman colour-changing glass" (25/10/2026): theguardian.com
  • Smithsonian Magazine, Zeeya Merali, "This 1,600-Year-Old Goblet Shows that the Romans Were Nanotechnology Pioneers" (setembro de 2013): smithsonianmag.com
  • Ian Freestone, Nigel Meeks, Margaret Sax e Catherine Higgitt, "The Lycurgus Cup — A Roman nanotechnology", Gold Bulletin, v. 40, n. 4, 2007: link.springer.com
  • Wikipedia (em inglês), "Lycurgus Cup", para as estimativas de partes por milhão e o histórico dos estudos: en.wikipedia.org

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