O que moveu o preço da prata em 2025: tarifas, estoques e a corrida pelo metal físico
Em 2025 a prata bateu recordes. Veja os fatores citados pelo World Silver Survey 2026: déficit, estoques, tarifas, juros e a escassez de outubro.

Em janeiro de 2025, a onça de prata começou o ano abaixo de 29 dólares. Em dezembro, chegou a 84. Poucas vezes um metal mudou tanto de patamar em doze meses. O que explica isso? Não existe uma causa única, e quem tenta resumir tudo em uma só frase costuma errar.
Este texto reúne os fatores que o World Silver Survey 2026, relatório do Silver Institute com dados da consultoria Metals Focus (publicado em 15/04/2026), aponta para o ano. É uma explicação do que aconteceu, e não uma previsão. Nada aqui é recomendação financeira.
Os números do ano
- Preço médio em 2025: US$ 40,03 por onça, contra US$ 28,27 em 2024, alta de cerca de 42% na média.
- Pico: US$ 84 por onça em dezembro de 2025.
- Déficit do mercado: 40,3 milhões de onças, o quinto ano seguido de oferta menor que a demanda. Veja o que é o déficit de prata.
- Oferta cresceu 7% e a demanda total caiu 2%.
- Compra de barras e moedas: alta de 14% no ano (217,7 Moz), com o impulso concentrado no quarto trimestre.
Fator 1: o déficit chegou aos estoques
O relatório descreve 2025 como o ano em que "o déficit finalmente cobrou a conta". Depois de anos em que a demanda superou a oferta, os estoques visíveis ficaram menores. O metal também foi retirado de Londres ou ficou preso em fundos negociados em bolsa (ETPs). Com menos metal disponível para empréstimo, o mercado ficou mais sensível a qualquer aumento de procura. A mecânica está em estoques de prata em Londres e na COMEX.
Fator 2: as tarifas e a corrida para os cofres dos EUA
No início do ano, cresceu o temor de que os EUA impusessem tarifas sobre metais preciosos, inclusive a prata. Segundo o relatório:
- A prata acabou ficando fora das tarifas, e isso foi reiterado no fim de agosto.
- Mesmo assim, o receio de uma divergência entre os preços de Nova York e de Londres fez o prêmio de entrega na CME subir a cerca de US$ 0,80 por onça, acima dos níveis do período da covid.
- O resultado foi uma onda de entregas aos cofres da CME, em boa parte com metal vindo do Reino Unido. Os estoques da CME chegaram a um recorde no início de outubro.
Ou seja, parte do metal mudou de lugar por causa de uma expectativa, e Londres ficou com menos prata livre. A relação entre tarifas e a lista de minerais críticos dos EUA está em prata, minerais críticos e tarifas.
Fator 3: a escassez de outubro
Em outubro, a alta dos preços aumentou muito a procura da Índia. Segundo o relatório, prêmios no mercado indiano dispararam, e metal foi enviado de avião de Londres para lá. Com pouca liquidez em Londres (só 17% do metal londrino não estava alocado a ETPs no fim do terceiro trimestre, contra quase 35% no fim de 2024), as taxas de empréstimo da prata chegaram a níveis inéditos. A taxa de empréstimo é o custo para tomar metal emprestado por um período. O relatório fala em um "aperto de liquidez sem precedentes" naquele mês. Depois disso, o metal voltou a Londres e as taxas caíram.
Esse episódio é um dos motivos pelos quais algumas pessoas falam em manipulação. O relatório o explica por estoques, ETPs e demanda física. Para ver as duas versões, leia manipulação do preço da prata.
Fator 4: juros, dólar e a independência do Fed
O relatório cita dois fatores de ambiente macroeconômico que ajudaram o setor de metais: as dúvidas sobre a independência do banco central dos EUA (Fed) e as expectativas de cortes de juros. O ouro foi o mais beneficiado por esses dois. A lógica é que metais preciosos não pagam juros, e por isso respondem às taxas dos títulos públicos. Para entender melhor, veja juros, dólar e prata.
Fator 5: o ouro primeiro, a prata depois
Por boa parte de 2025, o cenário favoreceu mais o ouro. Os temores sobre tarifas levaram o ouro a vários recordes nos quatro primeiros meses. A prata, pela exposição à indústria, ficou para trás e chegou a sofrer com a comparação. A relação ouro/prata ficou em 107 para 1 em abril e caiu para menos de 55 para 1 em dezembro, a menor desde março de 2013, segundo o relatório. É a prata "alcançando" o ouro. Mais em relação ouro/prata.
Fator 6: compra de barras, moedas e fundos
A incerteza econômica e geopolítica elevou a procura por metal físico, principalmente no quarto trimestre. Os fundos de prata também cresceram: o relatório registra aumento de 26% nas posses combinadas dos ETPs em 2025, para um novo recorde de 1,3 bilhão de onças. Veja demanda por barras, moedas e fundos.
Fator 7: a prata entra na lista de minerais críticos
Em novembro, a prata foi incluída na lista final de minerais críticos dos EUA. O relatório cita a decisão, junto de notícias (erradas, segundo o próprio texto) sobre restrições de exportação chinesas, entre os fatores que alimentaram a alta.
O que veio depois (janeiro a março de 2026)
O mesmo relatório descreve que o movimento continuou, com mais volatilidade: o preço chegou a mais de US$ 121 por onça em 29 de janeiro de 2026. Depois, recuou para a casa dos US$ 60 altos no fim de março de 2026. O relatório atribui a virada a realização de lucros, ao fechamento forçado de posições alavancadas e à reavaliação das expectativas de juros. Em um único dia, a queda do pico ao fundo foi de 38%. Para entender por que a prata varia mais que o ouro, veja por que a prata é mais volátil que o ouro.
O que esse retrospecto não diz
- Não diz que o preço vai repetir esse caminho. O próprio relatório fala em volatilidade e em queda de procura com preços altos em joalheria e prataria.
- Não diz quando comprar ou vender.
- Não mede o efeito de cada fator isoladamente: eles agiram juntos.
Perguntas frequentes
Qual foi o maior motivo da alta em 2025?
O relatório não indica um único motivo. Ele combina o déficit e a queda dos estoques, a corrida física, tarifas, juros e fatores geopolíticos.
Por que a prata ficou atrás do ouro no começo do ano?
Porque o ouro respondeu mais às tensões comerciais e geopolíticas, enquanto a prata, com parte grande da demanda na indústria, foi afetada pelo receio sobre o crescimento global.
O que é a taxa de empréstimo (lease rate)?
É o custo de tomar metal emprestado por um prazo. Quando o metal está escasso, essa taxa sobe.
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Fontes
- Silver Institute / Metals Focus, "World Silver Survey 2026" (15/04/2026), capítulos 1 (Summary), 5 (Investment) e 6 (Bullion Trade): silverinstitute.org
- USGS, "Mineral Commodity Summaries 2026: Silver": pubs.usgs.gov


