Bancos centrais e ouro: de vendedores a compradores em 20 anos
Dos acordos de venda de 1999 ao fim do último acordo em 2019: a história dos acordos de ouro dos bancos centrais europeus e como ler os dados do WGC.

Alguns textos da internet falam em "bancos" que se "entopem" de ouro e em "teatro dos bancos centrais". Para sair do tom de acusação e ficar com o que dá para conferir, vale olhar para os documentos oficiais e para as estatísticas do World Gold Council (WGC). A história é simples de contar: até 2019, bancos centrais europeus tinham acordos para limitar suas vendas de ouro; hoje, o debate é sobre quanto eles compram e como os números são medidos. Este texto trata da história dos acordos e da leitura das estatísticas. Quem comprou e por quê está em por que bancos centrais compram ouro. Os dados mais recentes por país estão em bancos centrais que compram ouro. O texto explica e não prevê preços.
Quando os bancos centrais eram vendedores
Em 26 de setembro de 1999, 15 bancos centrais europeus assinaram o Acordo de Washington sobre o Ouro. Eles se comprometeram a limitar suas vendas conjuntas a 2.000 toneladas em cinco anos, cerca de 400 toneladas por ano, e a não ampliar o empréstimo de ouro. Na época, segundo o WGC, os bancos centrais detinham cerca de um quarto de todo o ouro já extraído, algo em torno de 33.000 toneladas.
| Acordo | Data | Teto de vendas, segundo o WGC |
|---|---|---|
| 1º (Acordo de Washington) | 26/9/1999 | 2.000 t em 5 anos (cerca de 400 t por ano) |
| 2º | 8/3/2004 | 2.500 t em 5 anos (500 t por ano) |
| 3º | 7/8/2009 | 400 t por ano (2.000 t no total); o FMI teve aprovada a venda de 403,3 t em setembro de 2009 |
| 4º | 19/5/2014 | sem limite numérico |
Dados: World Gold Council, página "Central Bank Gold Agreements"; Banco Central Europeu, comunicado de 26/7/2019.
Em 26 de julho de 2019, o BCE e outros 21 bancos centrais signatários anunciaram que o quarto acordo não seria renovado ao vencer, em setembro. O título do comunicado já dá o motivo: o mercado amadureceu e os bancos centrais concluíram que um acordo formal deixara de ser necessário. O texto afirma que o mercado de ouro se desenvolveu em maturidade, liquidez e base de participantes desde 1999, que os signatários não venderam quantidades significativas por quase uma década e que bancos centrais e outras instituições oficiais em geral passaram a ser compradores líquidos. O comunicado informa também que o preço do ouro havia subido cerca de cinco vezes no período (paráfrase do comunicado do BCE).
Quando passaram a comprar
A pesquisa anual do WGC com bancos centrais (Central Bank Gold Reserves Survey), divulgada em 16 de junho de 2026, ouviu 76 instituições, um recorde, e informa que os bancos centrais acumularam em média 1.000 toneladas por ano nos últimos quatro anos, contra 500 toneladas por ano na década anterior. É uma pesquisa de opinião com instituições que aceitaram responder, e não um retrato completo do que cada banco central fez. Os demais resultados e os motivos citados estão em por que bancos centrais compram ouro.
Como ler essas estatísticas
- Defasagem. Segundo o WGC, os bancos centrais costumam informar suas operações com atraso, e os números do trimestre incluem estimativas parciais. Por isso o WGC fixa uma data de corte: no segundo trimestre de 2026, os dados foram reportados até 24 de julho.
- Revisões. Na edição do segundo trimestre de 2026 (30 de julho de 2026), o WGC revisou a estimativa do primeiro trimestre de 244 para 57 toneladas, por "novos dados e análises". Na página do primeiro trimestre, o WGC informa que a revisão inclui uma reclassificação de parte do volume, de bancos centrais para o mercado de balcão (OTC). O primeiro semestre somou 345 toneladas, o menor primeiro semestre desde 2022 (241 toneladas), segundo o WGC. Um número chamado de "recorde" ou "fraco" pode mudar na edição seguinte.
- Compra não reportada. O WGC define a compra não reportada como o resíduo entre a demanda estimada e as compras informadas pelos bancos. Ninguém informa esse número: ele é uma estimativa, e o WGC o descreve como alto desde 2022. Por isso o total real pode ser diferente do que aparece nas tabelas.
- Quem entra na conta. São bancos centrais e outras instituições oficiais (o WGC inclui, por exemplo, o fundo soberano SOFAZ, do Azerbaijão), e não bancos comerciais. Quando um texto fala em "os bancos" comprando ou vendendo, vale checar de qual tipo de instituição se trata.
- Venda nem sempre é venda. O WGC mede o ouro oficial descontando o que está em swaps, garantias ou depósitos. Na página do primeiro trimestre de 2026, o WGC registra que a Turquia usou 80 toneladas em swaps de ouro em março, além das vendas, e cita o governador do banco central turco dizendo que parte das operações tem natureza de swap, com o ouro voltando às reservas no vencimento.
Para a história do sistema em que o ouro era a base do dinheiro, veja padrão-ouro: o que foi.
E o Brasil?
Na série 3553 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central do Brasil, o ouro nas reservas internacionais passou de 4.168 mil onças troy (129,6 toneladas) em agosto de 2025 para 5.544 mil onças troy (172,4 toneladas) em novembro de 2025, e se manteve nesse valor até setembro de 2026. A série completa tem texto próprio: reservas de ouro do Brasil.
Em resumo
De 1999 a 2019, acordos entre bancos centrais europeus limitaram as vendas de ouro; em 2019, eles deixaram de ser renovados porque, segundo o BCE, o mercado amadureceu e os bancos centrais já eram compradores líquidos. Hoje, o WGC acompanha as compras com defasagens, revisões e uma parcela estimada que ninguém reporta. Quem lê esses dados deve conferir sempre a data de referência e a edição do relatório.
Fontes
- World Gold Council — Central Bank Gold Agreements: gold.org
- World Gold Council — CBGA 1, Washington Agreement on Gold: gold.org
- Banco Central Europeu — "As market matures central banks conclude that a formal gold agreement is no longer necessary" (26/7/2019): ecb.europa.eu
- World Gold Council — Central Bank Gold Reserves Survey 2026 (16/6/2026): gold.org
- World Gold Council — Gold Demand Trends: Q1 2026, seção Central Banks (29/4/2026): gold.org
- World Gold Council — Gold Demand Trends: Q2 2026, seção Central Banks (30/7/2026): gold.org


